As arritmias cardíacas surgem quando o coração bate demasiado devagar (bradicardia), demasiado rápido (taquicardia) ou de forma irregular, devido a alterações na formação ou na condução dos impulsos elétricos. O seu impacto na saúde é variável, podendo ir desde situações benignas até quadros clínicos graves, potencialmente fatais. Não existem arritmias exclusivas da mulher, mas há diferenças importantes em relação ao homem, tanto na prevalência e manifestação clínica quanto na eficácia do tratamento recebido. Os efeitos das hormonas sexuais no coração e o funcionamento do sistema nervoso que controla o coração têm sido apontados como as principais causas dessas diferenças.
Na mulher, o diagnóstico tende a ser mais tardio. Sintomas como palpitações, cansaço, tonturas, desmaios, dor no peito e falta de ar são, muitas vezes, incorretamente atribuídos a ansiedade, problemas emocionais ou, em determinadas fases da vida, a alterações hormonais provocadas pela menopausa. Esta dificuldade na valorização dos sintomas reforça a necessidade de maior atenção e sensibilidade no diagnóstico.
Entre as bradicardias, a doença do nó sinusal – o “relógio” que inicia cada batimento – é mais comum nas mulheres. O coração fica mais lento ou tem falhas, podendo ser necessário implantar um pacemaker.
Entre as taquicardias, as supraventriculares são mais habituais na mulher. Caracterizam-se por episódios súbitos de batimentos rápidos, geralmente entre 180 e 210 batimentos por minuto, podendo durar minutos ou horas. Embora não sejam perigosas, afetam significativamente a qualidade de vida. Estão associadas a alterações hormonais femininas, sendo mais frequentes nos primeiros dias do ciclo menstrual e após a menopausa. A ablação por cateter é curativa, mas a mulher tende a recebê-la mais tardiamente.
Os cardiodesfibriladores implantáveis, usados para prevenir a morte súbita em arritmias ventriculares graves, são menos aplicados em mulheres, mesmo quando indicados, possivelmente devido à menor perceção de risco ou à idade mais avançada aquando do diagnóstico.
A fibrilação auricular é a arritmia mais frequente em ambos os géneros e aumenta exponencialmente com a idade. Em Portugal, cerca de 2,5% da população com mais de 40 anos é afetada por esta condição. A partir dos 60 anos, uma em cada quatro mulheres pode desenvolvê-la. A fibrilação auricular compromete a qualidade de vida, aumenta o risco de insuficiência cardíaca, agrava o declínio cognitivo e é uma causa comum de acidente vascular cerebral (AVC). Nas mulheres acima de 75 anos, o risco de AVC é maior e as consequências são mais graves, uma vez que a mulher tem menor probabilidade de receber anticoagulantes orais ou ablação por cateter, tratamentos que reduzem a mortalidade e melhoram a qualidade de vida.
A pouca participação feminina em ensaios clínicos que avaliam a eficácia da ablação por cateter ou a implantação de dispositivos cardíacos que tratam as arritmias limita o conhecimento sobre a eficácia e segurança dessas terapêuticas na mulher. Promover uma abordagem mais equitativa é essencial para melhorar os cuidados cardiovasculares na mulher.