Depressão na gravidez

Depressão na gravidez

A gravidez nem sempre corresponde a um “estado de graça”. Em Portugal, a prevalência de depressão em mulheres grávidas, com maior incidência nos dois últimos trimestres, situa-se entre 10 e 20%. Por isso, torna-se relevante refletir sobre a necessidade de intervenções clínicas que se foquem neste período, tendo em conta todos os desafios que estão em jogo nas dinâmicas da mulher, consigo mesma, e com os outros.

A compreensão da história psicológica da futura mãe, a qualidade da relação com o pai do bebé, a dinâmica com a família e os amigos, e o nível de satisfação profissional são essenciais para uma ajuda profissional adequada.

A ideia generalizada de encarar a gravidez como uma fase de inevitável alegria e realização nem sempre corresponde à realidade. Mesmo na ausência de perturbações psicológicas com significado clínico, neste período ocorrem transformações que colocam à prova a resiliência emocional das mulheres.

O modo como a grávida se antecipa a si própria como mãe, as mudanças na vida que prevê, aos níveis relacional, económico e de trabalho, e a forma como olha para o seu corpo são aspetos muitas vezes presentes e desafiantes no decorrer da gestação. A maneira como são vividos e encarados pode ser determinante na saúde psicológica da mulher durante o pós-parto e nos primeiros tempos como mãe.

Uma história clínica psicológica de depressão ou perturbação de ansiedade, a inexistência de apoio familiar efetivo, uma relação difícil ou ausente com o pai do bebé, e uma situação de precariedade económica e laboral constituem fatores que podem potenciar disfunções, incluindo a depressão.

Neste contexto, há comportamentos que devem ser encarados como sinais de alerta: um quadro de choro fácil e frequente, o isolamento social, a perda de entusiasmo ou de prazer face ao que habitualmente se desejava, bem como discursos culpabilizantes e autodepreciativos.

O acompanhamento por profissionais de saúde mental pode ser fundamental para garantir estabilidade emocional e favorecer uma futura relação saudável entre a mãe e o bebé. O psicólogo clínico pode ter um papel decisivo, ao ajudar a grávida a gerir receios e incertezas e, no pós-parto, a ajustar as suas expetativas relativamente ao bebé real, promovendo uma vivência mais confiante da maternidade.

Quando o bebé nasce, a alegria esperada pode ser acompanhada de sentimentos ambivalentes e causadores de sofrimento. Esperar que a chegada de um filho seja sempre vivida como um momento idílico, por mais desejado que tenha sido, é um equívoco e representa uma enorme pressão sobre as mulheres.

Por tudo isto, tão importante como o acompanhamento adequado da saúde física da grávida é a atenção ao seu estado emocional, à dinâmica do casal e à construção da relação entre a mãe e o bebé.

Recorrer ao apoio de um psicólogo clínico pode tornar-se uma decisão muito importante para prevenir eventuais estados de sofrimento e de disfuncionalidade no decorrer da gravidez. Este apoio pode fazer a diferença, mais tarde, na qualidade do vínculo com o bebé.

 

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